Se você atua como correspondente bancário e ainda não sabe exatamente o que é crédito imobiliário, está perdendo negócio. Trata-se da linha de crédito usada para comprar, construir, reformar ou levantar capital utilizando um imóvel como garantia, com prazos que chegam a 35 anos e taxas bem abaixo das praticadas no crédito pessoal. É o produto de maior tíquete médio do mercado de crédito brasileiro e, em 2026, ele está crescendo acelerado.
Só no primeiro semestre deste ano, o crédito imobiliário movimentou R$ 180,9 bilhões no Brasil, alta de 23% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Abecip.
Neste conteúdo, você vai entender como o produto funciona, quais são as regras vigentes, por que ele se diferencia de outras linhas e como transformar esse conhecimento em venda.
O que é crédito imobiliário?
Crédito imobiliário é a modalidade em que o cliente toma um valor emprestado tendo o próprio imóvel como garantia da operação. Na prática, o banco registra a alienação fiduciária do bem: o imóvel fica vinculado ao contrato até a quitação.
Essa garantia real muda tudo na estrutura do produto. Como o risco da instituição financeira cai, ela consegue oferecer três coisas que nenhuma linha sem garantia entrega: valores altos, prazos longos e juros menores.
O produto se divide em dois sistemas.
SFH (Sistema Financeiro da Habitação)
Usa recursos da poupança (SBPE) e do FGTS. Tem regras sociais mais rígidas e, em contrapartida, condições mais favoráveis ao cliente. O Custo Efetivo Total é limitado a 12% ao ano, incluindo juros, tarifas e comissões, e o teto de valor do imóvel enquadrado subiu de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões.
SFI (Sistema de Financiamento Imobiliário)
Atende operações fora dos limites do SFH: imóveis de valor mais alto, comerciais ou perfis que não se encaixam nas regras sociais. Em linhas gerais, não há teto de taxa nem de valor, e as condições seguem as regras de cada banco.
Como funciona o crédito imobiliário na prática?
A esteira de uma operação imobiliária é mais longa que a de um consignado, e conhecer cada etapa evita que você perca o cliente no meio do caminho.
- Simulação: você levanta renda, valor do imóvel, prazo desejado e saldo de FGTS do cliente.
- Análise de crédito: a instituição financeira parceira avalia o perfil e define o valor aprovado, o prazo e a taxa.
- Escolha do imóvel: com o crédito pré-aprovado em mãos, o cliente negocia com muito mais poder.
- Avaliação de engenharia: o banco envia um engenheiro para laudar o imóvel e confirmar o valor de mercado.
- Análise jurídica: conferência da documentação do vendedor, do comprador e da matrícula.
- Assinatura e registro: o contrato é assinado e registrado no cartório de imóveis.
- Liberação: o recurso vai para o vendedor e a operação entra na sua comissão.
O prazo total varia conforme banco, região e pendências de documentação. Explique isso ao cliente logo na primeira conversa: expectativa alinhada reduz desistência.

Quais modalidades você pode vender?
O guarda-chuva do crédito imobiliário é bem maior do que apenas financiar apartamento.
- Financiamento de imóvel pronto: novo ou usado, residencial ou comercial. Os usados respondem pela maior fatia das operações de aquisição com recursos do SBPE.
- Crédito para construção: para quem já tem o terreno e quer construir por etapas, com liberação por cronograma de obra.
- Terreno + construção: o cliente compra o lote e ergue a casa dentro do mesmo contrato.
- Crédito com Garantia de Imóvel (CGI/home equity): o que é o crédito com garantia de imóvel? O cliente utiliza um imóvel como garantia para levantar capital, conforme as condições e critérios da instituição financeira. A operação pode apresentar taxas menores que as praticadas em linhas de crédito sem garantia, dependendo da instituição e do perfil da operação.
- Portabilidade: transferência de um financiamento existente para outra instituição com condição melhor.
O CGI pode ser o seu foco. Ele atende um público que a maioria dos parceiros ignora: o cliente que não quer comprar imóvel, quer capital de giro, quitação de dívidas caras ou investimento no próprio negócio.

O mercado de crédito imobiliário em 2026: os números que sustentam sua abordagem
Dado na mão é argumento de venda. Aqui estão os que importam.
Volume em alta. Os R$ 180,9 bilhões do primeiro semestre representam alta de 23% sobre os R$ 147,1 bilhões de 2025, segundo a Abecip. Os financiamentos com recursos do SBPE somaram R$ 93,7 bilhões (+29%) e as operações com FGTS chegaram a R$ 77,6 bilhões (+22%), puxadas pelo Minha Casa, Minha Vida. O crédito para construção saltou 107%, para R$ 26,5 bilhões.
Juros em queda gradual. Em agosto de 2026, o Copom cortou a Selic para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo do ciclo. Ainda é um patamar alto, mas a direção mudou. Um ambiente de juros menores pode contribuir para melhorar as condições de financiamento e ampliar a capacidade de crédito, dependendo do perfil do cliente e da política de cada instituição.
Preços subindo acima da inflação. O Índice FipeZAP de Venda Residencial subiu 0,46% em julho, acumulando 2,89% em 2026 e 5,46% em 12 meses. Para o cliente que está adiando a compra, isso significa um custo real de espera.
Demanda estrutural. O déficit habitacional brasileiro fechou 2024 em 5,77 milhões de moradias, segundo a Fundação João Pinheiro. O principal componente é o ônus excessivo com aluguel, que responde por 62,14% do total, ou 3,59 milhões de domicílios.
Esse dado dimensiona a relevância social do produto: milhões de famílias comprometem parte expressiva da renda com aluguel, e o crédito imobiliário é justamente o instrumento que permite trocar esse custo pela aquisição de um bem.
Por que o crédito imobiliário é mais vantajoso que outras linhas
Coloque lado a lado com o que o cliente costuma contratar e a diferença aparece sozinha.
Taxa
Como existe garantia real, os juros do crédito imobiliário ficam em outro patamar frente ao crédito pessoal sem garantia, ao cheque especial e ao rotativo do cartão. As taxas variam por banco, perfil e modalidade.
Prazo
O financiamento habitacional pode chegar a 420 meses, prazo superior ao normalmente encontrado em outras modalidades de crédito ao consumidor.
Valor
O ticket é o maior do mercado de crédito à pessoa física, o que muda completamente a matemática da sua comissão por operação.
Finalidade
O cliente troca um custo que não volta (aluguel) por um bem que ele acumula.
Recorrência
Quem financia imóvel volta para portabilidade, para CGV, para seguros e para consórcio. Uma operação imobiliária abre uma carteira.
As regras que você precisa dominar antes de abordar o cliente
Este é o ponto em que a maioria dos parceiros trava. Domine estes cinco itens e sua conversão sobe.
1. Comprometimento de renda
Os bancos limitam a parcela a um percentual da renda familiar comprovada. Algumas instituições permitem composição de renda entre diferentes participantes, conforme suas políticas e critérios de análise, um caminho que pode viabilizar casos que não avançariam apenas com a renda de um proponente.
2. Entrada e percentual financiado
Na maioria das operações, é necessário algum nível de entrada, e o percentual financiado varia conforme a instituição, o perfil do cliente, o imóvel e a modalidade.
3. Uso do FGTS
O saldo pode compor a entrada, amortizar o saldo devedor ou reduzir o valor das parcelas. As condições de uso seguem regras do Conselho Curador do FGTS e envolvem tempo de contribuição, localização do imóvel e situação patrimonial do cliente.
4. Minha Casa, Minha Vida
O programa passou por uma ampliação recente. A Portaria MCID nº 333, de 30 de março de 2026, atualizou os limites de renda familiar, que chegam a R$ 13 mil na modalidade voltada à classe média. Já os novos tetos de valor do imóvel — até R$ 600 mil nessa modalidade e até R$ 400 mil na Faixa 3 — fazem parte do conjunto de alterações aprovadas pelo Conselho Curador do FGTS e das regulamentações posteriores. Nas Faixas 1 e 2, o teto do imóvel fica entre R$ 210 mil e R$ 275 mil conforme a região. O prazo pode alcançar 420 meses, com taxa nominal de 10% ao ano na faixa voltada à classe média.
5. Custos além da parcela
ITBI, registro em cartório, avaliação do imóvel e os seguros obrigatórios do contrato entram na conta. Antecipe esses valores na simulação. Cliente surpreendido na assinatura é operação perdida.
O que muda em 2027 e por que isso importa agora?
O Conselho Monetário Nacional aprovou um novo modelo de direcionamento dos recursos da poupança para o crédito imobiliário, com plena vigência prevista para janeiro de 2027. O direcionamento obrigatório de 65% dos depósitos da poupança será substituído por um modelo que amplia gradualmente o percentual aplicado em habitação, podendo chegar a 100%. Do saldo considerado nesse direcionamento, 80% deverá ser destinado a operações enquadradas nas regras do SFH, com juros limitados a 12% ao ano.
O modelo também incorpora os depósitos interfinanceiros imobiliários, permitindo que instituições que não captam poupança concedam crédito habitacional em condições equivalentes. Mais bancos operando a mesma carteira significa mais concorrência, mais tabelas para comparar e mais espaço para o parceiro que sabe simular.
Regras regulatórias mudam com frequência. Confirme sempre as condições vigentes com o seu Gerente Comercial antes de fechar uma proposta.
Como transformar tudo isso em venda?
Conhecimento sem abordagem não vira comissão. Três frentes práticas:
Trabalhe a sua base atual
Seus clientes de consignado, CLT e crédito pessoal também pagam aluguel, também têm FGTS parado e alguns já têm imóvel quitado para usar como garantia. A prospecção mais barata é a que você já fez.
Construa parceria com quem já está com o cliente
Imobiliárias, corretores autônomos e construtoras conversam todos os dias com gente que precisa de crédito e não sabe por onde começar. Ofereça a simulação como serviço.
Compare tabelas antes de indicar
O mesmo cliente recebe condições diferentes em cada instituição. Quem simula em vários bancos vende mais e devolve menos proposta.

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